Maria fala sozinha #11
Do que é feita uma amizade?
Logo na minha primeira semana como estagiária do jornal O Dia, em meados de março de 2016, sugeri umas cinco santas pautas – eventos, canonizações à vista, querelas religiosas — à chefe de redação, cujo sorriso algo irônico e olhar severo me lembro tão bem. “Você é católica, não é? Muito católica?”, ao que respondi, orgulhosa, provavelmente trajando uma minissaia que clamava por um esculacho de Santa Teresinha do Menino Jesus e uma cara de sonsa de fazer rir o próprio Cura d’Ars: “Eu sou, sim”. Não fiz nenhuma pauta católica no Dia, e tomei os primeiros solavancos de uma realidade alheia a uma mocinha do interior criada em uma numerosa família metida à beata. Tendo sofrido algum destes trancos, eu lutava contra as lágrimas sobre o teclado da minha mesa quando uma barra de chocolate apareceu ao meu lado. Era a Flora, a estagiária da tarde, que chegara enquanto eu estendia o turno matutino lapidando uns parágrafos. “Toma, para deixar o seu dia um pouco mais doce”.
Doce mesmo era a Flora, que poucos dias depois me convidou para sua festa de aniversário de vinte e quatro anos, um piquenique no Aterro do Flamengo. Tendo escapado de todas as chopadas da faculdade, eu não tinha muitos amigos, e compareci ao evento obstinada a eliminar qualquer culpa no cartório: se não me tratassem bem, a culpa sempre fora deles, esse povo da comunicação da federal (eu estudava na UFF, ela na UFRJ). Ocorre que Flora recebeu-me com imensa alegria; fez de tudo para que eu me sentisse à vontade, para que participasse das conversas, para que não me faltasse assunto. Mais, muito mais, do que me fora proporcionado por qualquer paróquia que houvesse tentado frequentar em quatro anos de Rio de Janeiro. É pena que me traia minha afiada memória, de modo que já não me recorde mais os detalhes do fatídico chá-revelação: conversávamos sobre alguma reportagem, quando Flora me disse, entre uma e outra bobagem: “...é que eu sou marxista”.
Qual na tarde em que, sabe Deus porque ínfima tosquice, eu quase me debulhava em uma baia da Rua dos Inválidos, escrevo estes primeiros parágrafos sem bem enxergar o teclado, porque eu e Flora trocamos há pouco um último abraço antes de sua partida para a Universidade de Oxford, ainda um pouco enevoadas por conta do vinho que abrimos para comemorar. Já são quase dez anos por perto da Flora e muitas homenagens escritas em datas comemorativas mencionando nossas divergências político-religiosas (além de expressamente comunista, Flora é ateia — mais ousada, portanto, que nossa contemporaneidade esotérica). Nenhuma, que eu me lembre, a meditar sobre a verdadeira natureza de uma amizade, assunto sobre o qual minha querida amiga esquerdosa tantas vezes me levou a refletir ao longo de uma década deveras intensa: tendo sobrevivido às eleições de Jair e Luiz Inácio, é difícil que qualquer outra nos tire do prumo, e nas linhas a seguir espero conseguir explicar o porquê — e adianto que também não é lá coisa nova.
Circula às direitas — sobretudo, às direitas católicas, ainda que uma coisa não necessariamente se sobreponha à outra — uma citação recorrentemente atribuída a São Tomás de Aquino, segundo a qual uma amizade só seria possível diante de um tal de “idem velle, idem nolle”: querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Creio tê-lo ouvido pela primeira vez (ó, que surpresa) na live de um influenciador que, usando a dita frase, dava a entender que não se pode ser amigo de quem não partilha dos mesmos valores. Não é que eu discorde de todo da ideia: é mesmo desafiador, para não dizer impossível, estabelecer uma profunda intimidade com quem nos é frontalmente avesso, e por motivos que sequer esbarram na política partidária. Por resguardo da intimidade e para não ouvir um monte de asneira, eu nunca dividiria as agruras cotidianas do casamento, por exemplo, com quem não o tenha por prioritário, como não abriria uma questão de ordem espiritual a quem não lhes dê crédito. Resvalando para os temas do noticiário, também é difícil travar uma boa conversa com quem esteja munido de adjetivos exacerbados a serem lançados diante de qualquer mínimo desarranjo — “fascista”, “extremista”, ad nauseam — e todos nós temos o direito de estabelecer denominadores básicos de convivência: não se deve defender assassinos, nem abusadores, nem o marketing digital. Nada disso é novidade, e eu continuo a acreditar que gente canalha, ou babaca, ou efetivamente extremista muito dificilmente se manifesta em um campo só. A falta de afinidade ideológica já me levou a me afastar um conhecido ou outro: estou segura de dizer que em nenhum caso um voto, um posicionamento político isolado ou uma opinião de que eu discordasse foi a causa final.
Isto posto, também não é que eu quisesse peitar o santo, mas achava a coisa toda esquisita, e tinha memória de um amigo — também simpático às amizades multi ideológicas — ter-me informado de que a frase não apenas fora instrumentalizada pela direita, como nunca fora dita por São Tomás. Fiz uma breve pesquisa (reservo-me, portanto, uma margem de erro) e meu exercício de fact-checking me levou a confirmar que o Doutor Angélico, de fato, nunca escreveu nenhuma sorte de vaticínio contra certos tipos de amizade. O tal do “idem velle, idem nolle” não existe na Suma Teológica e, ao que parece, nem em qualquer outra obra de São Tomás. Trata-se, na verdade, de um provérbio romano sobre amizade citado por Sêneca, e ainda que o leitor possa lá ter sua simpatia pelos romanos, eu tendo a preferir os canonizados. Referenciando Aristóteles, o que São Tomás de fato disse é que a amizade é amar alguém, querendo-lhe o bem como a si mesmo (“amicitia est velle bonum alicui”), e algumas linhas a mais:
Amar é mais próprio da amizade do que ser amado. Pois os amigos dizem-se amigos sobretudo por amarem, mais do que por serem amados (Suma Teológica, II-II, q. 27, a. 2).
Não é nem que eu e Flora não tenhamos ódios e amores em comum: odiamos bilionários, amamos tradições religiosas populares, odiamos o wokeísmo, amamos famílias (eis, talvez, uma de nossas concordâncias mais delicadas e profundas: a de que as críticas usualmente feitas à família apontam para sua indispensabilidade do que para o oposto), e amamos Taylor Swift. Conversamos incontáveis vezes sobre nossas crenças e nossos limites, sobre o que se pode ceder ou não, e teimosamente construímos um terreno comum, que a essa altura já se afigura como um frondoso jardim onde se requer caminhar com zelo, mas sempre se pode descansar. Emprego o adjetivo “teimosamente”, e talvez esteja nele a ponta do fio que nos leva ao nosso santuário particular: ao longo desses anos, Flora e eu insistimos em estar perto uma da outra. Falamos, sim, das questões do mundo, mas falamos mais, muito mais, de nossos namorados, nossos estágios e empregos, das nossas famílias, das nossas dúvidas, e falhas, e muitíssimas ansiedades. Em suma, Flora sempre esteve interessada na minha vida, e eu na dela. Nunca mediu esforços para visitar-me, sobretudo depois das crianças, de modo que estou segura que o Atlântico será o menor dos oceanos já enfrentados para que estejamos juntas. Em uma ou outra ocasião em que uma palavra mal empregada, uma explicação incompleta, fizeram com que nossas diferenças (não necessariamente políticas) ameaçassem sobressair, como sói acontecer em qualquer amizade de longa data, bastava um reencontro, ainda que virtual, para arrefecer qualquer má impressão. Tenho certeza de já ter dito, mais de uma vez, para o meu marido, ou para outros amigos, que sempre que encontro com a Flora, essas coisas vão embora, e me sinto em casa. Gosto de vê-la, quero-lhe bem. Creio haver nisso um lampejo do que o santo quis dizer por amar mais do que ser amado e, avançando um pouco em minha breve empreitada tomista, fiz algumas novas descobertas que corroboram minha suspeita. À luz do comentário de São Tomás sobre a “Ética à Nicômaco”, explica o teólogo Adam Eitel (aqui) que, para que haja amizade, é preciso que duas pessoas 1) desejem, sinceramente, o bem uma a outra, de forma recíproca; 2) sejam unidas pela busca de algum bem em comum; 3) tenham algum compartilhamento de vida, uma comunicação e, por fim, 4) o desejo de manter a relação, de sustentar esta comunhão.
O bem que os amigos desejam uns aos outros — pensem nisso — é precisamente a sua amizade. O que você quer para os seus amigos? Você quer que eles sejam seus amigos. Você quer que esta realidade, esta amizade, continue, permaneça. Se amar alguém é desejar-lhe algum bem, e toda forma de amizade — ou amizade verdadeira — consiste em desejar algum bem a alguém, então estou sugerindo que aquilo que os amigos desejam uns aos outros, acima de tudo, além da verdade, além da eternidade com Deus e uns com os outros, é precisamente este deleite mútuo, esta amizade.
Tendo, pois, completado o bingo da amizade a la São Tomás, ofereço ao leitor uma alternativa secular: o trecho de crônica que encontrei já há alguns anos — não sei em que contexto, dado o pouquíssimo que conheço de Nelson Rodrigues — mas que nunca mais me escapou à memória, e costuma me ocorrer sempre que reflito sobre as sensibilidades religiosas que podem permear uma amizade, ou sobre seu próprio valor (com o perdão da citação longuíssima: falta-me uma blusinha para editar o Nelson).
Vou falar de Alceu Amoroso Lima, mas o assunto é ainda Guimarães Rosa. Eis o que eu queria dizer: — para mim, o amigo é o grande acontecimento. (Bem me lembro daquela segunda-feira. Entro na redação e vejo o Franklin de Oliveira. Vagava por entre mesas e cadeiras, e tão órfão de Guimarães Rosa.) Há cinco ou seis anos, resolvi ser amigo do dr. Alceu. Era dezembro. No dia 24, ligo para ele. Imaginei que, na espera de Natal, um católico puro há de estar aberto para o mundo.
Comecei assim: — “Dr. Alceu, aqui fala o Nelson Rodrigues. Como vai? Vai bem?”. Não havia nenhuma convivência entre nós. Mas ele respondeu, vivamente: — “Ah, Nelson, tenho pensado tanto em você! Agora mesmo, estava rezando por você”. Pensando em mim, rezando por mim. Vou adiante: — “Dr. Alceu, estou-lhe telefonando para desejar todas as felicidades, a si e aos seus” etc. etc. etc. Por um momento, tive vontade de contar-lhe o seguinte: — “Dr. Alceu, quando eu era criança, o ‘Tico-Tico’ publicava um presépio para armar. O senhor sabe que eu recortava as figurinhas e colava em papelão?”.
Todavia, não falei do presépio. Um ano depois, no mesmo 24 de dezembro, disco novamente. E o dr. Alceu responde: — “Ah, Nelson, acabei de rezar por você”. (Ah, não se esquecia de mim nas suas orações.) Mais uma vez, não contei que em criança armava os presépios do “Tico-Tico’. E, assim, Natal após Natal, não lhe faltei com o meu sofrido telefonema.
Eis o que eu pensava: — um católico, como o dr. Amoroso Lima, há de ter Deus enterrado em si como um sino. Ele havia de imaginar que eu corria, arquejante, atrás de um amigo, eternamente atrás de um amigo. E, no entanto, eu sentia, com uma nitidez cruel, inapelável, que o dr. Alceu rezava por mim e não era meu amigo. Simplesmente, não era meu amigo.
Até que, um dia, converso com uma senhora que acabava de chegar de Roma. Entrara no Vaticano e fora recebida pelo papa. Na hora de se despedir, o Santo padre baixa a voz e diz, súplice: — “Reze por mim”. Era um papa, a mendigar uma oração. Tremendo de beleza, a pobre senhora saiu dali como se fugisse.
No seguinte Natal, vou ligar para o dr. Alceu. Estou cada vez mais convencido de que o amigo é um momento de eternidade. Antes de discar, passo um bom quarto de hora sonhando diante do telefone. Eu queria ter, com o dr. Alceu, uma conversa de lealdade total. Eis o que imaginava dizer lhe: — “Dr. Alceu, reze menos por mim. Se quiser, não reze nada. Mas seja meu amigo. Apenas isso: — meu amigo. E, se insiste em rezar, vamos fazer uma permuta: o senhor reza por mim e eu rezo por si”.
Daria tudo para ver o dr. Alceu mendigando as minhas orações, com a humildade de um papa. Imaginei o velho católico a suplicar, do fundo do seu desespero: — “Nelson, reze por mim. Eu preciso ser salvo. É a minha salvação que está em jogo”. Se ele falasse assim, trêmulo de pavor, eu responderia: — “Dr. Alceu, vou começar agora mesmo. Não desligue. Quero que o senhor ouça a minha oração”. E assim eu salvaria o dr. Alceu Amoroso Lima, e seríamos amigos eternamente.
O amigo, sim, é o grande acontecimento — e eis tudo (em minha defesa, eu avisei que não havia nenhum grande segredo). Movida pelo testemunho do doutor Nelson já pedi e peço à Flora, uma e outra vez, que reze por mim, pela minha irmã, pela minha família e pelas minhas falhas. À revelia do receituário, porém, Flora bem sabe que rezo por ela, que hei de arrancar-lhe a conversão do alto para que nos encontremos no meio do caminho, como duas velhas carolas anticapitalistas. Pouco me importa, afinal, o que minha querida amiga espera hoje ou amanhã do Estado ou da mão invisível do mercado — a esta altura, juro, para mim, é tão relevante quanto que sejam longos os seus cabelos. Importa que se sinta amada, amada por mim, amada pelos que a amam, amada para que descanse na certeza, que não raramente me falta, proclamada por um recém-eleito Pontífice, no discurso ao qual assistimos juntas no último mês de maio, entre fofocas e fraldas: “Não tenham medo. O mal não prevalecerá. Estamos todos nas mãos de Deus”.
Alguns links:
A crônica completa de Nelson Rodrigues (vocês me perdoem a fonte questionável, mas o texto é esse mesmo — está em uma coletânea).
O podcast do Instituto Tomista onde ouvi o professor Eitel, uma recomendação do também mui amigo Rodolfo Canônico.
A vaquinha para ajudar a Flora a custear os estudos em Oxford, na Benfeitoria.



Bom… muito bom! Uma questão restante é que desejar o bem a um amigo admite graus. Por exemplo, posso desejar-lhe apenas a saúde do corpo, ou a salvação, como você com sua Flora. Talvez o “idem velle” — que, se não me falha a memória, é de Salústio, e se refere às horrendas, mas firmes amizades do conspirador Lúcio Catilina — possa encaixar-se com mais justiça aí, nalgum lugar. Talvez o erro do influenciador em questão não seja tanto citar Salústio, mas interpretá-lo na prática.
Teu texto me fez lembrar da amizade entre Chesterton e Bernard Shaw. Havia respeito e admiração de parte a parte, mas raramente concordavam quando expressavam suas ideias.
Que a amizade de vocês duas continue e cresça ainda mais!